quinta-feira, 25 de setembro de 2008

2 lugar em concurso de micronarrativa promovido pelo MARCELINO FREIRE

[1º]

GêneseEscuridão. Deus desemcapando fio: Terra.

[ Carlos Nealdo ]

[2º]

Nosso casamento entre estilhaços daquela xícara.

[ Georgio Rios ]

[3º]

Vendia heroína para comprar a polícia.

[ NightHiker ]


O resultado completo pode ser lido no blog www.eraodito.blogspot.com De MARCELINO FREIRE

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DOMINGO

O mar estava distante.
Segunda feira, era uma bolha cintilante que, logo, logo, estouraria numa terça cheia de inquietação

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Eu na Verbo 21...

in www.verbo21.com.br

agosto de 2008


Foto velha

Para Sandro Ornellas

Talvez a janela aberta,
seja este sopro,
um talho encravado na escarpa
da tarde

A imagem incrustada
(em preto e branco)
Obliqua.

Retina incerta.

Aquela fotografia antiga na estante.
O instante em que a gota desaba
acaba

A cena muda dos olhos,
incertos.

Talvez, a janela aberta
seja o símbolo,
o assombro do instante.

A moldura gasta
onde vejo distraído
aquela foto velha...

Cavalgada
P/ José Inácio Viera de Melo

Perto das cercas,
acesas asso meus pés descalços
cassando cacimbas.

Dos pastos flamejam estrofes,
e as vacas ruminam poemas.
Corto com facão e versos estes
varedos.

Amarro a peia na vasta porteira
da rima

risco, arriscando laços, infinitos...
E aflito, aboio esconderijos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS

José Inácio Vieira de Melo


Assim é a casa dos meus quarenta anos,

assombrada e sóbria como um bacurau.

Em seus largos cômodos,

habitam uma enorme solidão

e muitas vontades de vida.

É noite e estou em meu quarto

urdindo meus infinitos à eternidade.

Eu – apenas eu – eu.


Lá fora, uma sinfonia de questionamentos:

grilos, sapos, rãs na sua intermitente litania

enlouquecem meus fantasmas.


A minha casa, às três horas da madrugada,

tem os olhos bem abertos – esbugalhados sertões –

e os seus fantasmas, somatórios do eu,

vão se arrumando do jeito que podem.


Um, no quarto ao lado,

implora para que desatem o nó da forca.

Não suporta mais as folhas da algarobeira

chorando o seu destino.


No quarto do outro lado,

outro choraminga suas dores, suas pernas quebradas,

o sangue escorrendo para o nada

(esse espectro dói demais e a sua grande

novidade é saber que vai morrer).

No quarto derradeiro,

os morcegos dormem sossegadamente

e seu mundo não é de cabeça para baixo.

No quarto derradeiro da casa dos meus quarenta anos,

os morcegos adubam o terreno e aguardam a chegada

de mais um dia, de mais um ano.

E assim, no bater das asas do galo pedrês,

o choro do recém-nascido.


E de dia a casa dos meus quarenta anos

é cheia de janelas azuis abertas para o azul.

E uma multidão de ventos vem assobiar dentro dela,

vem renovar os ares, sacudir os quadros nas paredes,
jogar meus retratos pelo chão.

Ventos dadaístas

a remexer nos meus poemas, mudar seus versos,

rearrumar suas estrofes.


E o dia vai crescendo com uma claridade medonha,

e as telhas da minha casa abrem os olhos

e olham para o alto e se benzem e dizem amém

(cada telha da casa dos meus quarenta anos

é um olho aceso espiando dentro de suas cores).


E há momentos em que tudo que é bicho se cala

E a casa mais parece um cemitério.


A casa dos meus quarenta anos é caiada de branco

E tem janelas azuis abertas para o azul.


A casa dos meus quarenta anos – cemitério de ilusões.



José Inácio, poeta vaqueiro, arrebanhador de gado e de versos.Aboiando a poesia para o curral seguro da "Casa dos seus quarenta anos"

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CAPÍTULO I

A estrada é uma historia que cabe em si mesma. Foi descortinando suas curvas que descobri o quanto é dura a vida. Dei no pé bem cedo. Por capricho, ou por loucura, resolvi enfrentar cada dia num lugar diferente, respirar ares distintos. Paredes sempre me fizeram mais mal que bem. Primeiro por que a queda de uma delas deixou meu pai inutilizado. Por negligência de um engenheiro que queria sair para sua farra de sexta. Não atentou para o traçado da massa que faltava cimento. Mandou levantar a parede. Meu pai tentou avisar que aquilo daria merda, mais ele nem quis saber. Levantaram três metros acima do nível e quando ele passava para ir embora a parede desabou por cima. Um alvoroço tomou o canteiro de obras, o resgate achou que era trote do pessoal, que tinha por diversão ver a ambulância sair em alta velocidade e com as sirenes gritando. O socorro só apareceu depois do terceiro chamado. Ele perdeu muito sangue e a perna necrosou. Algumas escoriações e duas fraturas. Uma perna amputada.

O infeliz foi visitar meu pai, em casa. Meio desajeitado pediu desculpas. Em resposta meu pai apontou para o lugar da perna:

--ela não volta. Estou aleijado. Inútil.

-Pense pelo lado positivo. Vai se aposentar em plenos 35 de idade.

-Suma daqui seu filho da puta. Cretino.

Depois desta pequena discussão entrou numa espécie de ostracismo. Calou-se. Fechou-se para sempre.

Não respondia as perguntas, nem mesmo assistia ao telejornal, hábito que tinha todas as noites. Estava definhando lentamente. Talvez apodrecesse na mesma intensidade em que sua perna amputada.

Um dia não mais suportei esta situação e arrumei uma mochila surrada, catei alguns livros e uma foto nossa, num dia de pescaria, algumas camisas e calças e dei no pé. Não deixei bilhetes, nem pensei em matar o engenheiro cretino. Tive pena dele, afinal algum, dia, mais cedo ou mais tarde, um uísque daria conta do recado, fazendo aquele coração duro parar e apodrecer como a perna do velho.

Na estrada dei a mão em vão durante horas a fio. Tinha que me mandar rápido antes que alguém desse por minha falta. Mais eu não queria vê-lo morrer e pousar num caixão. Guardaria a imagem alegre de nossa pescaria. Resolvi seguir a pé pela velha estrada. Não tinha grana nem mesmo um real. Até então eu só estudava. Mais a minha coragem parecia grande, tinha asas próprias. Segui em frente. Eram três da tarde quando alcancei a curva onde sumiam as ultimas casas da cidade. Segui sem olhar para trás. Lembrei-me das aulas dominicais onde o pastor falava da mulher que virou estatua de sal por olhar para trás desobedecendo às ordens. Aquilo já não mais me pertencia. Naquela curva eu era outra pessoa, não mais o Filipe da Rua Voluntários. Rasguei o caminho até as nove da noite. Parei quando encontrei uma velha casa abandonada. A princípio tive receio de entrar, mais o frio que fazia naquela noite me poria no chão. Quando pequeno tive uma pneumonia, desde então meus pulmões tinham se tornado fracos. Observei por um tempo do lado de fora para ver se escutava algum barulho, algum ruído, um sussurro. Mais nada. Entrei o telhado da velha casa deixava ver um punhado das estrelas que estavam no céu. Procurei um canto onde o sereno não me incomodasse.
Adormeci...
Este é o primeiro capítulo, de um texto que se escreve aos poucos,estou dando um corpo a ele , que por hora está como uma novela.
GEORGIO RIOS