quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CAPÍTULO I

A estrada é uma historia que cabe em si mesma. Foi descortinando suas curvas que descobri o quanto é dura a vida. Dei no pé bem cedo. Por capricho, ou por loucura, resolvi enfrentar cada dia num lugar diferente, respirar ares distintos. Paredes sempre me fizeram mais mal que bem. Primeiro por que a queda de uma delas deixou meu pai inutilizado. Por negligência de um engenheiro que queria sair para sua farra de sexta. Não atentou para o traçado da massa que faltava cimento. Mandou levantar a parede. Meu pai tentou avisar que aquilo daria merda, mais ele nem quis saber. Levantaram três metros acima do nível e quando ele passava para ir embora a parede desabou por cima. Um alvoroço tomou o canteiro de obras, o resgate achou que era trote do pessoal, que tinha por diversão ver a ambulância sair em alta velocidade e com as sirenes gritando. O socorro só apareceu depois do terceiro chamado. Ele perdeu muito sangue e a perna necrosou. Algumas escoriações e duas fraturas. Uma perna amputada.

O infeliz foi visitar meu pai, em casa. Meio desajeitado pediu desculpas. Em resposta meu pai apontou para o lugar da perna:

--ela não volta. Estou aleijado. Inútil.

-Pense pelo lado positivo. Vai se aposentar em plenos 35 de idade.

-Suma daqui seu filho da puta. Cretino.

Depois desta pequena discussão entrou numa espécie de ostracismo. Calou-se. Fechou-se para sempre.

Não respondia as perguntas, nem mesmo assistia ao telejornal, hábito que tinha todas as noites. Estava definhando lentamente. Talvez apodrecesse na mesma intensidade em que sua perna amputada.

Um dia não mais suportei esta situação e arrumei uma mochila surrada, catei alguns livros e uma foto nossa, num dia de pescaria, algumas camisas e calças e dei no pé. Não deixei bilhetes, nem pensei em matar o engenheiro cretino. Tive pena dele, afinal algum, dia, mais cedo ou mais tarde, um uísque daria conta do recado, fazendo aquele coração duro parar e apodrecer como a perna do velho.

Na estrada dei a mão em vão durante horas a fio. Tinha que me mandar rápido antes que alguém desse por minha falta. Mais eu não queria vê-lo morrer e pousar num caixão. Guardaria a imagem alegre de nossa pescaria. Resolvi seguir a pé pela velha estrada. Não tinha grana nem mesmo um real. Até então eu só estudava. Mais a minha coragem parecia grande, tinha asas próprias. Segui em frente. Eram três da tarde quando alcancei a curva onde sumiam as ultimas casas da cidade. Segui sem olhar para trás. Lembrei-me das aulas dominicais onde o pastor falava da mulher que virou estatua de sal por olhar para trás desobedecendo às ordens. Aquilo já não mais me pertencia. Naquela curva eu era outra pessoa, não mais o Filipe da Rua Voluntários. Rasguei o caminho até as nove da noite. Parei quando encontrei uma velha casa abandonada. A princípio tive receio de entrar, mais o frio que fazia naquela noite me poria no chão. Quando pequeno tive uma pneumonia, desde então meus pulmões tinham se tornado fracos. Observei por um tempo do lado de fora para ver se escutava algum barulho, algum ruído, um sussurro. Mais nada. Entrei o telhado da velha casa deixava ver um punhado das estrelas que estavam no céu. Procurei um canto onde o sereno não me incomodasse.
Adormeci...
Este é o primeiro capítulo, de um texto que se escreve aos poucos,estou dando um corpo a ele , que por hora está como uma novela.
GEORGIO RIOS

3 comentários:

  1. Ótimo..., bom de ler... quero o capítulo II

    ResponderExcluir
  2. Adorei o texto, me identifiquei com o personagem, só me falta a coragem com asas próprias, a minha tem asas quebradas...

    Parabens!!!

    ResponderExcluir