segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS

José Inácio Vieira de Melo


Assim é a casa dos meus quarenta anos,

assombrada e sóbria como um bacurau.

Em seus largos cômodos,

habitam uma enorme solidão

e muitas vontades de vida.

É noite e estou em meu quarto

urdindo meus infinitos à eternidade.

Eu – apenas eu – eu.


Lá fora, uma sinfonia de questionamentos:

grilos, sapos, rãs na sua intermitente litania

enlouquecem meus fantasmas.


A minha casa, às três horas da madrugada,

tem os olhos bem abertos – esbugalhados sertões –

e os seus fantasmas, somatórios do eu,

vão se arrumando do jeito que podem.


Um, no quarto ao lado,

implora para que desatem o nó da forca.

Não suporta mais as folhas da algarobeira

chorando o seu destino.


No quarto do outro lado,

outro choraminga suas dores, suas pernas quebradas,

o sangue escorrendo para o nada

(esse espectro dói demais e a sua grande

novidade é saber que vai morrer).

No quarto derradeiro,

os morcegos dormem sossegadamente

e seu mundo não é de cabeça para baixo.

No quarto derradeiro da casa dos meus quarenta anos,

os morcegos adubam o terreno e aguardam a chegada

de mais um dia, de mais um ano.

E assim, no bater das asas do galo pedrês,

o choro do recém-nascido.


E de dia a casa dos meus quarenta anos

é cheia de janelas azuis abertas para o azul.

E uma multidão de ventos vem assobiar dentro dela,

vem renovar os ares, sacudir os quadros nas paredes,
jogar meus retratos pelo chão.

Ventos dadaístas

a remexer nos meus poemas, mudar seus versos,

rearrumar suas estrofes.


E o dia vai crescendo com uma claridade medonha,

e as telhas da minha casa abrem os olhos

e olham para o alto e se benzem e dizem amém

(cada telha da casa dos meus quarenta anos

é um olho aceso espiando dentro de suas cores).


E há momentos em que tudo que é bicho se cala

E a casa mais parece um cemitério.


A casa dos meus quarenta anos é caiada de branco

E tem janelas azuis abertas para o azul.


A casa dos meus quarenta anos – cemitério de ilusões.



José Inácio, poeta vaqueiro, arrebanhador de gado e de versos.Aboiando a poesia para o curral seguro da "Casa dos seus quarenta anos"

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