quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

UM CONTO MEU, PRA VARIAR!

DEPOIS DA GUERRA.


No lugar do coração tinha uma pedra”... Sempre me lembro disto quando estou nesta casa...

Um inverno, frio e úmido, onde a biblioteca é a única parte da casa onde não faz tanto frio. Não tremo quando estou por lá. Os livros sempre lhe serviram, em sua solitária companhia, meio que eremita. Uma velha poltrona de couro, umas poucas miniaturas de automóveis e seus livros. Estrelas de seu pequeno universo. Tudo bem arrumado, como da primeira vez que aqui entrei. Em cima da escrivaninha um álbum de fotos, da época do exército. Fôra Pracinha na Segunda Guerra.

Descobri todo um universo naquela pequena sala.
Entre seus livros pude ver e andar por lugares distintos: ora pelo “Deserto dos Tártaros” ora pelo “Grande Sertão: e suas “Veredas” me perdi por “Terras do Sem Fim” e singrei o “Mar Morto”. A minha educação foi a : “Educação pela Pedra”. Sempre que ia lhe visitar pedia que me deixasse dormir no quarto da biblioteca.Varava as madrugadas sentado na mesinha que tinha uma lâmpada logo acima. Ele tomou gosto pelo meu gosto de ler. Dizia-me sempre que: mesmo as dores, estas tão fieis companheiras, são menores quando temos os livros Assim foram todos os meses de julho que nós o visitávamos. O mesmo frio e demorado mês, todos os anos, os mesmos galhos nus circundando a casa.

Nestes dias em que passávamos o mês em sua companhia, pouco falava. Pouco saía de sua poltrona, perdia horas e horas, observando um quadro a sua frente. Um quadro onde figuravam, no cair da tarde, três mulheres descendo uma pequena montanha. Não ousei lhe perguntar o que via naquela cena. Ainda hoje o quadro pousa na mesma parede. Não reformamos a casa depois que ele se foi. Tudo permanece no mesmo lugar; os livros, as fotos, o quadro, a velha poltrona de couro, as mesmas árvores e seus galhos desnudos a circundar a casa. Pensei em levar os livros e as fotos comigo. Não o fiz tudo era parte de um só conjunto: impressões e coisas formando um só punhado de lembranças. Ele agora era de alguma forma aquilo.

Inquieto, andando pelos arredores da casa eu pude ver o jardim, ainda cuidado. Além dos livros sentia-se a vontade com as flores embora na maioria do tempo ficasse calado, com as flores tinha longas conversas. Mesmo com a guerra não tinha perdido de tudo a sua ternura. Era ríspido com as pessoas, com as flores não o era. Por isso sentava-me em sua poltrona, tentando abstrair daquele quadro o que o fazia perder tanto tempo a olhar aquela imagem, perder-se naquelas plagas imaginárias. Por várias vezes busquei saber o que via quais lembranças transbordavam das cores impressas naquela imagem. Minha mãe nunca falava do passado. Como eles viviam antes da ida dele a Guerra. Privava-me de qualquer informação que envolvesse seu passado. Uma nódoa pendia de seus olhos. Desde que ele morreu, ela não olhava ninguém nos olhos. Isto era a única coisa que me incomodava quando voltávamos àquela casa. Sentia a falta de suas indicações, seus livros prediletos, suas únicas palavras, deitadas dum lugar secreto.

Certa feita olhei as fotos uma por uma. Minha mãe as arrebatou como se temesse que eu descobrisse algo. Agora ele está morto. Além dos livros e das fotos, só a poltrona manchada de sangue e o quadro. Creio que o levarei comigo. Afinal, alguma coisa eu tenho que levar desta casa.

Uma lembrança para os tempos em que estiver longe...

Foi a partir desta atitude que se descortinou toda a questão que cercava os silêncios, o dela e o dele. Ele se calou para sempre com uma bala no crânio. Ela morria em cada palavra não dita. Do quadro desprendeu-se um papel, uma carta, onde ele dizia por que se mataria. Por ser meu pai. Minha mãe, sua filha e amante.

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