sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Reflexos


CARTA

É o fim da guerra
ocultemos os mortos
louvemos seu inútil
heroísmo

Sagremos
as medalhas sem peito
e os rostos esquecidos

É o fim da guerra
busquemos os escombros
as ruas vazias

Olhemos os pássaros
seus presságios
pairando sobre os cadáveres
da guerra


sob os olhos de crianças
esquecidas

É o fim da guerra
e seus aços retorcidos...

É o fim da guerra...

Passos se afastam em silêncio”
Cai a carta de mãos cansadas...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

De quando os versos cortam...


LACERADO


Manejar a navalha
talhar sobre a pele
os enigmas,
as sombras

E em cada corte
avançar
sobre a música
que terce o verso
[ao avesso

avistando as estradas
secretas que
descendem
dos olhos
distantes...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Depois do fim de semana


EFÍNGE


Sou decifrador de enigmas
e das cores sei extrair
segredo

Pouco sei contar do longe
sou do aqui
e aqui componho minhas
cismas

do cimo do monte
dos meus olhos
mostro
estes cansados
luminares que aqui
ostento

sou decifrador de enigmas
e sei fazer chover

mesmo no verde opaco
da janela, faço deitar as gotas

decifro-me, e devoram-me
na rua,
certos olhos inquietos...


IMAGEM: http://www.flickr.com/photos/pioforsky/2689155380/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

DEPOSIÇÃO


As luzes, difusas
e os insetos vageando
[dançando sob a música da luz

lâmpadas
infestam as ruas

idéias
infestam cabeças

a minha cabeça
pende sobre o livro

o sono,
cinicamente, cerra meus olhos
que obedecem sem pestanejar...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


PALAVRA

Dentro,
bem dentro dos olhos
já sem névoas
sem culpas
sem Às de copas.
nem mesmo um baralho

Cartas na mesa
Na mesma sorte
esquecida
vestígios de certa
poeira

restos de espelho,
réplicas
e respostas
sobrepostas

E as telhas, inquietas
olhando, em silêncio
minha inquietação
secular.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009


Melissa

Cantei loas aos Vates
Canções cantei aos Aedos
e poetas meus amigos

Canto agora à luz dos
teus olhos
incessante poesia

sem palavras canta
versos secretos

exalam rimas teus
dedos pequeninos

e sorrindo nos empresta
alegria, em asas de metáfora...

FOTO, Georgio Rios.2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

poema , sempre poema...


ETAÇÃO 111

Poeira dentro das mentes
senhoras ocupadas

Outros pontos
desta velha receita

olhando a partida
do trem...
seu velho apito
vaga sombra na lembrança
do menino
velho

as velhas fotos
vagando entre as cartas,
a faca, descansando
e esperando, esperando
e sonhando as veias abertas...


Imagem:http://www.flickr.com/photos/jorgemarazzo/2560561337/

domingo, 18 de janeiro de 2009

poema



VENTO

Dizer e desdizer
deslizar
em desalinho

O vento há de trazer
de longe,
o recado, direitinho...

e direitinho dizer
o que nem sempre esperamos


Ele sairá sem saber
Se, sorrimos ou,
Choramos...

Sairá, revolvendo as folhas
debulhadas pelo outono...


E seguirá sozinho...

Enquanto sorrimos,
Ou em vão choramos....


IMAGEM: http://www.flickr.com/photos/vanderluciosz/3070242221/

sábado, 17 de janeiro de 2009

Depois da chuva.



Hoje, enquanto chovia, me veio uma lembrança de faz muito tempo.

O vento forte, primeiro arrancava as telhas, depois às suspendia como papel no redemoinho.

De súbito, lembrei-me de certa canção que me embalava minha mãe. O vento ficou forte e começou a suspender árvores, as velhas algarobeiras tombavam, e eu comecei a ouvir:

-Boi, boi, boi. Boi da Cara preta pega este menino que tem medo de careta...

Um medo me correu as veias.

As árvores retorcidas, agora no chão, me diziam sobre a velha canção...

Depois de um tempo, a chuva parou, e a enxurrada levava as folhas soltas das árvores.
Não levava só as folhas, as águas, correntes daquela chuva levavam também meu medo...

Comecei a retirar a água da casa com paciência, e o medo levado pela enxurrada seguia como um barquinho de papel, feito na infância distante...



quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Mais um bilingue....

OCASO

Olvidar en silencio
Esta forma
mirar despacio
el cielo, la tarde
el ojo lejano
después
oir, sin prisa
la misma musica
del fin

en el espejo
en el espejo...


FIM DE TARDE


Esquecer em silêncio
Esta forma
olhar devagar
o céu, a tarde
o olho distante
depois
ouvir, sem pressa
a mesma música
do fim

no espelho
no espelho...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

EPIGRAMA




Deixei neste espelho minha face
Feito uma foto em movimento

E como o vento fui andando
Andando e me corroendo

Hoje, ante o vago tempo
Pouco me resta do vão momento



terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Do meu destino vaqueiro...


LOUVAÇÃO AOS VAQUEIROS PRETÉRITOS

Para Wladimir Cazé

Meus pensamentos
são meus cavalos

Roberval Pereyr


Crer no sagrado
que habita
os mandacarus


No mistério verde
dos juazeiros
sertanejos

Adentrar varedos
acalentar o sono
sob os lajedos

Vaticinar a multidão
das macambiras

E aboiar,
aboiar sem fim

meu infinito
rebanho de
estrelas...

domingo, 11 de janeiro de 2009

ODISSÉIA

Musas perdidas
de almas encardidas
em símbalos afinadas

Musas
mentirosas

mulheres
invisíveis

músicas opostas
devassas enseadas

toda mulher
é um mar

toda musa,
uma baia

nós
cães
catando migalhas
ao pé da
mesa

sábado, 10 de janeiro de 2009

Na moda de Gullar!!!

EPIFANÍA


Portas
dentro das portas
abertas

alguns
fogem por elas
apelam
apalpam

incertas formas

fórmica
de estante
instantaneamente
suja

o asco e
o mijo
o milho assado
na esquina

as meninas
de imagem corriqueira
desgastando
o poema...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Um poema para um livro que lí...


JARDINS ASSUSTADORES


As cores lúcidas
Em gris transformadas

Cores pálidas
Pousando sobre o rosto do homem
Ser mambembe

Estamos todos com tinta no rosto
nesta história

Rostos lavados
na chuva suja.

E o medo, bailando,
sob o olhar sinistro do fuzil

E estamos andando...


E sorrindo sem saber,
nesta caminhada errante
Para o fim da história.



quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

METÁFORA

Sou o que sou
sou cais
andarilho de destino comum

Sem tréguas
nem datas

Numa estrada aberta
entre meus dedos...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

TRÉPLICA benéfica ao poema amigo!

DANÇANDO UM TANGO POR AQUI

Seguir caminhando...
“Ao espaço de uma porta”
Decidindo os desatinos

Não aguardar com certeza,
Sons do velho tango argentino.

Ouça o conselho, garoto.
Não há receitas, não há bolos.

(Não há marchas no destino)

Há a voz dos amigos:
Nos sonhos.
Nas portas.

E assim, sem mais delongas.
Vamos seguindo...

domingo, 4 de janeiro de 2009

En dos lenguas!!!




PÁSSARO

Voa pássaro
Que tuas asas são livres e tuas.

Voa e do teu ninho, segura morada,
Zomba dos homens
Sós e loucos
A voar em asas de aço,
Que não são suas.

Voa pássaro
Que tuas asas são livres
e tuas.



PÁJARO*

Vola pájaro
Que tus alas son libres y tuyas.

Vola y de tu nido, hogar seguro
Zomba de los hombres
Solos y locos
A volar en alas de acero,
Que no son suyas.

Vola pájaro
Que tus alas son libres
Y tuyas.



*Tradução para o espanhol:Georgio Rios

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

TRAJETORIA



Sem a pressa das eras,
o rio fere a cidade ,
rasga como navalha.
Abre as carnes da terra
desnuda margens.

O rio,
Circula.
Veia.

Segue serpenteando.
Busca um rumo.
O caminho,
de quando não tinha água,
de quando não era rio...