sexta-feira, 27 de março de 2009

Um pouco de prosa!

CANÇÃO DE DESPEDIDAS
Um blues para Beth

Estava aparentemente emocionado. Sua formatura fora no sábado. Agora de posse do canudo ia rumar por outras paragens. Dentro da velha mochila uma pilha de fotografias sem álbum, umas cartas de amigos e parentes, e as cartas de Beth. Os livros empilhados numa caixa de papelão amarrado com barbantes e duas bolsas grandes de couro com a roupa. Tudo no fundo do taxi que o levara para a rodoviária. Deixou a Residência universitária em silencio absoluto. Os colegas que ficaram o saudaram também num silencio cortante. Dentro do taxi não quis olhar para trás. Não saberia como reagir ante a imagem que deixara há pouco. Em suas mãos inquietas um livro de Borges, foliado sem atenção. Estava preso a alguma coisa que não sabia discernir, explicar. O motorista respeitou seu silencio. Não puxou papo como com os outros clientes. Viu apenas em seus olhos um ar inquietado e divagante. Parecia perdido em um labirinto onde uma neblina clara, dava ares de bosque aos seus olhos, que refletiam as luzes da cidade, deixada para trás. Imaginava como seria a sua chegada, muitos anos depois. Saiu cedo de casa para trabalhar e estudar num pré-vestibular. Lá conheceu Beth, namoravam desde então. Depois veio a faculdade, fez o curso de Letras. Gostava de livros, literatura e sonhava em ser escritor. Enfrentou a exigência dos pais que sonhavam com um filho advogado ou médico. No mínimo um bom engenheiro.

Aceitaram, contudo o bom leitor que tornar-se seu filho. Sempre brilhado e agradando aos professores e amigos dentro campus.

Alguns flashs amontoavam-se em seus olhos. Sabia muito bem como eles funcionavam (devido às aulas com o professor Edson, apresentara seminário sobre o assunto na disciplina Recursos e Tec. Audiovisuais.). Primeiro os olhos de Beth, as mãos dadas com medo recíproco, um blues batido no violão, as risadas rasgando a tarde de um domingo qualquer, os olhos incrédulos ante a lista de convocados, o barulho da máquina de cortar cabelos derrubando cabelos e medos ante o sorriso desenhado em seu rosto, os primeiros dias no novo mundo, o trote, as aulas, a voz de Beth ao telefone, as viagens de campo, provas, seminários, o terror ante a noticia assistida na TV da cantina, Beth preza entre as ferragens, o desespero e o impulso de pegar a bicicleta, a longa fila de carros que se formava, a multidão junto do carro, a tentativa de barrar sua passagem, a força maior que a força, a mão de Beth para fora das ferragens, o aperto forte das mãos, o Eu te amo, as lágrimas recíprocas, as mãos se soltando, a maca, a ambulância, o trajeto ao hospital, a porta que os separou, a ansiedade pelas noticias, a noticia fatal e fria,os olhos frios do médico: Não a mais nada a fazer, Ela se foi...

Decidiu cumprir o que haviam se prometido na noite em que saíram pela primeira vez: “haja o que houver não desistiremos nunca dos nossos sonhos”.

Agora estava ali no taxi. Perdido. Olhar vago. Uma lagrima percorrera seu rosto. Pediu ao motorista, que se assustou com sua voz, que fosse até a Rua da Paz próxima a rodoviária. Desceu do taxi caminhou ate o cemitério sabia onde ela estava enterrada, sentou-se em silencio. Balbuciava, com os lábios semicerrados, algo que não dava pra ouvir. Depositou o livro sobre o túmulo. Enxugou as lágrimas e chamou o motorista que olhava de longe: ainda havia algo a fazer, agora vamos, é que ela não gostava de flores...
CONTO INÉDITO.

Um comentário:

  1. Belíssimo !!!!! Emocionante e real!
    A prosa perfeita em tudo, do início ao inesperado fim.

    Parabéns amigo!!!

    Abraços

    Mirze

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