domingo, 28 de fevereiro de 2010

Uma composição dentro dos olhos do gato


PEDEÇOS


Na noite clara dos teus olhos,

soube que chovia.


Uma dança de gotas sobre as telhas,

pequenos sons,

pequenas sombras

e a luz ínfima nas janelas.


A ocular fôrma da lua em teus olhos

forma das invisíveis cores,

da sala.



Chovia, era certo,

dentro do dentro

da pequena sala em que aquietavas teu corpo,

eriçado pelos ventos das velas dum barco,

vagando nas ondas

deste mar, nos olhos do gato.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Depois da Chuva, Por gerana Damulakis


Gerana Damulakis


Acabei a leitura do livro de poemas de Georgio Rios, Depois da chuva (futurArte, 2009), o qual, seguramente, coloca o poeta com um lugar garantido nas letras baianas. As "orelhas" estão assinadas por Gustavo Rios, autor do ótimo O amor é uma coisa feia (7Letras, 2007), coletânea de contos que comentei aqui no Leitora. Gustavo acertadamente realça: "O cara que escreveu esse livro está em formação. Inacabado e sugestivo. Como toda boa literatura deve ser. Lírico, sutil, com domínio da tal técnica, que serve para se fazer entender: poeta, portanto. Para dar o recado pro mundo que dorme..."

É fato que há uma estrada pela frente para Georgio Rios percorrer, mas, sem dúvida, ele a percorrerá porque já está caminhando e carregando a bagagem necessária. Seus pés estão bem plantados no chão e, do sentido do dia a dia que se vai vivendo, ele retira a poesia do cotidiano. Pode um vento passar e o poeta sentir esse vento e fazê-lo poema, mas na totalidade é da reflexão do que ocorreu, do que está ocorrendo, que Georgio cria seus versos.
Um bom exemplo:


PONTE
--------Georgio Rios

Sobre a velha ponte
fiz passar meus medos.

Em fila,
os tangi para o outro lado.

Um breve aceno,
uma despedida.

Pela outra
rua,
meus novos medos
chegavam...

E eu não abri a porta...


TEXTO DISPONÌVEL EM:http://leitoracritica.blogspot.com/2010/02/depois-da-chuva.html

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CONVERSA


A CONVERSA DAS TELHAS

Desde cedo,
aprendi escutar o secreto idioma das telhas,
a senda do silêncio,
suas cintilantes falhas,
e seus sussurros.

Dizem do que é labirinto,
das portas guardadas em segredo.

Há uma luz que abre o poema,
nas sílabas silvadas,
nos cantos calados do barro.

As telhas, dizem,
falam e contam determinados
segredos, em silêncio,
quando a cena do quarto gera
a impresição da noite.


IMAGEM:http://www.flickr.com/photos/serlunar/2353338242/

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Domingo dia de poema



PONTO DE PARTIDA


Por não sofrer a dor das pétalas,

nem o sangue das rosas, escorregadias,

é que acabo pastoreando versos,

vôos.


Na amplidão das janelas,

eis que sou pedra dentro da

inquieta e sonolenta manhã que abre

os dentes.


(Uma ave passa no poema)


Rasga o céu da página, na rasante

fuga do símbolo, a sombra do pássaro

passa, o pássaro com sua sombra, sobra

e passa.


(Uma ave passa no poema)


Pela tela da retina meus olhos

passam pela cena que desenrola

esta cansada máquina de dizer coisas.


(Uma ave passa no poema)


Lava a página e despeja metáforas...


IMAGEM:http://www.flickr.com/photos/flaviocb/161973925/



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Yasmim


MEU MAIS PERFEITO POEMA


Tem nos olhos um brilho
de rutilantes jóias de amor, minha filha.

Sei tirar forças das tuas fortes
mãos.

e ouvir o mar em teu sorriso

secreto


Há uma senda em teu sono


E a vida me bateu a porta e

te deixou, de presente

em meus braços.



Imagem: Georgia Naamã (Tia de Yasmim)


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Fugindo do real



NOVO ITINERÁRIO


Abrir a porta aos ecos

da rua, dos passos dentro

da rua de dentro

dos olhos fixos dos postes


As salinas formas do beco, suas curvas


““ “Que importa o beco” e a paisagem”

Tenho a lâmpada acesa sobre minha cabeça

Tenho o trapiche, e o show de mariposas

sua cadencia aérea


E o beco, e a paisagem.


Os pássaros feitos de spray

No grafite dos muros

No limite excêntrico das coisas


E não me chamo Manoel,

Nem empunho alguma bandeira.


Apenas conheço certo itinerário que vai dar em

Pasárgada.


Mais aceito o conselho!


“Vou-me Embora pra Pasárgada”



IMAGEM:http://www.flickr.com/photos/23565258@N03/2249859200/