segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ficções ao Mar, de Georgio Rios (resenha)


Foto: Vel Martins

Todos os volumes da coleção Cartas Bahianas, da P55 Edições, têm o formato de um envelope de carta, com uma aba que sobressai da capa e se encaixa ao fundo. No caso de Ficções ao mar, de Georgio Rios, o formato pareceu unir-se à vocação do livro, o que levaria facilmente a um leitor desavisado crer que seria uma edição personalizada. Ficções ao mar – como quem posta, envia.

Seriam estes microcontos mandados ao mar? O curioso é que o autor vive em Riachão de Jacuípe, no sertão baiano. Ele não escreveu uma homenagem como quem está a alguns passos das ondas, elas talvez sejam as destinatárias. Na dedicatória feita à caneta no meu exemplar, ele descreve do seguinte modo o percurso: “(são) respingos do mar que habita cada sertanejo”. O que lembra de imediato a máxima de Antônio Conselheiro, do sertão a virar mar e vice-versa. Algumas teorias geológicas apontam, inclusive, que várias rochas do semiárido são semelhantes às que constituem hoje o fundo do oceano. Para além das evidências, no entanto, existe do sertão para o mar, como de toda coisa para o seu contrário, essa estranha intimidade, esse parentesco, e é o que parece buscar este livro.

Assim, os microcontos de Rios não seriam pelo mar, mas por quem está de longe e vê o mar como uma possibilidade, ou como um completo outro com o qual também se reconhece. A primeira parte do livro é feita dessa matéria e tem como carga a estranheza de um contato. Em “Sulamita”, o meu favorito, é mostrada a relação dos extremos – caatinga e litoral, secura e umidade, velhice e mocidade -, sem que um extremo se perca no outro. Há uma boa escolha de imagens, em que também se aliam os outros textos curtos, alguns praticamente fotográficos. Às vezes a experiência estética é a mesma de quando se visita uma exposição.
Esse modo não se mantém linear, o que é uma escolha inclusive do próprio autor, ao dividir o restante da compilação em “Terra Firme”, “Cais” e “Farol”. Faz parte do projeto a mudança repentina mesmo do tom, que passa aí a envolver a sátira e o humor. Testam-se texturas. Georgio se permite experimentar abrangências do gênero e, com isso, claro, não convence sempre. A máxima da captura do instante para o microconto pode relativizar demais o motim de criação, como ao dar-se a jogos de palavras (“Casamento”), a  simples opiniões (“Do alto do morro”) ou a falsos impactos (“Pequeno Inventário”, “O Gato”). Não é uma questão exclusiva deste autor em sua aventura. É própria da aventura.

Acredito que a força maior do microconto esteja em dizer com pouco o que significa uma vastidão, ser qual o fragmento antigo de uma obra que nunca se irá recuperar e que nem mais se precise recuperar. Isto se encontra sim nas quarenta e oito páginas de Ficções ao Mar. Eis uma delas, por exemplo:

Marítimas
“Tínhamos um trato”, ela disse resignada, entre um soluço e uma lágrima que lenta, desenhou a geografia marinha no seu rosto.

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POR: (Saulo Dourado)
Originalmente publicado em: http://www.ibahia.com/a/blogs/literatura/2013/01/04/ficcoes-ao-mar-de-georgio-rios-resenha/